Gilmore Girls está de volta para comover os fãs da série com Um Ano para Recordar

Nossas primeiras impressões sem spoilers do aguardado retorno das garotas Gilmore

No último episódio da sétima temporada de Gilmore Girls, Lorelai (Lauren Graham) e Rory (Alexis Bledel) não tiveram suas últimas palavras escritas por Amy Sherman-Palladino, que as tinha criado. Na época, quando a roteirista recusou os termos do novo contrato com a CW, ela anunciou que já tinha planejado os dois últimos anos e que sempre soube, desde o início, quais seriam as últimas quatro palavras que seriam ditas na série. A declaração deixou os fãs em polvorosa, sobretudo porque o caminho tomado por David Rosenthal, que assumira o comando após a saída de Sherman-Palladino, não estava agradando a maioria deles.

Quase dez anos depois, quando a Netflix anunciou que traria o programa de volta, uma luz de esperança se acendeu e as tais quatro palavras se tornaram uma realidade. É bem verdade que quatro palavras podem parecer pouco para causar um grande impacto e conhecendo Lorelai como conhecemos, não seria impossível que as tais palavras fossem algo como "ET Telefone Minha Casa". O fato é que com a série de volta, muito do que foi feito naquela malfadada última temporada poderia ser corrigido e esquecido. Considerando erros grotescos como o casamento entre Lorelai e Christopher (David Sutcliffe), haveria muito do que esquecer-se. A nova leva de episódios era como um sonho colorido.

As Três Gilmore

Produções como Gilmore Girls não fazem parte de um grupo de dramaturgias de grande eloquência. Esse não é o tipo de série que apela para grandes reviravoltas e em seus sete anos nunca vimos mudanças muito drásticas. Isso é tão categórico que um funeral de verdade só aconteceu na série porque o elenco perdeu Edward Herrmann, falecido pouco antes de toda a movimentação do retorno começar. A morte de Herrmann antecipou a morte de seu personagem Richard, o que também obrigou o roteiro dos novos episódios a lidar com essa realidade.

O mundo à nossa volta sofreu avanços consideráveis e eles precisariam ser aplicados ao universo da série. Talvez uma das grandes questões acerca disso sejam as discussões culturais sobre empoderamento feminino. Mesmo lá no início dos anos 2000, quando esses apontamentos ainda não eram tão marcados na teledramaturgia, Lorelai já era uma mulher independente, segura, dona de sua carreira e que conseguia dosar força e ternura na sua relação com os homens.


A série não queria fazer panfletagem, mas Lorelai era uma grande feminista involuntária. Tudo isso também aparecia na determinação de Rory e até na falsa subserviência aristocrática de Emily (Kelly Bishop). Por conta disso, nove anos depois, as personagens não precisam se afirmar, mas sim lidar com a estagnação do tempo, natural para quem encontrou-se com seus objetivos muito cedo.

Sendo assim, Um Ano para Recordar vem para mostrá-las descobrindo coisas novas sobre si mesmas. E se Lorelai e Rory sempre foram o foco principal quando a série esteve no ar, dessa vez Emily divide a mesma experiência de renovações. Para a filha e a neta, esse novo mundo representa o constante equilíbrio entre querer e saber se contentar, mas para Emily é uma questão de reconfiguração completa. A viuvez lhe ofereceu um olhar distanciado das convenções que ela sempre defendera e essa se tornou a oportunidade perfeita para que o texto explorasse a personagem de maneiras ousadas e divertidas. Nunca Gilmore Girls foi tão sobre as três mulheres da família quanto agora.

As Quatro Estações

Dos maiores benefícios que esse retorno nos trouxe, o melhor deles é a retomada da atmosfera da cidade, perdida no sétimo ano. Stars Hollow está de volta com seus eventos bizarros, seus moradores estranhos e doses adoráveis de Taylor (Michael Winters), Kirk (Sean Gunn) e Babete (Sally Struthers). Mantendo sua promessa, Sherman-Palladinho trouxe de volta absolutamente todos os que quiseram retornar e mesmo que as participações não se distribuam igualmente pelos episódios, elas acontecem de modo orgânico, sem exageros e de formas estratégicas. É sensacional ver a cidade funcionando de novo, ver a trama central sendo contornada por aquelas interferências geniais que surgem inesperadamente e que nesse retorno têm um frescor irretocável.

Apesar de avessos a grandes reviravoltas, os novos roteiros não se acovardam e reservam à personagens como Paris (Liza Weil), Michel (Yanic Truesdale) e até Sookie (Melissa McCarthy) uma posição ativa na história, não simplesmente decorativa. Ainda que as agendas dos atores não permitisse muitas cenas, seus personagens estão presentes na espinha da dramaturgia. Há uma coerência muito grande na maneira como as histórias de Emily e das Lorelais vão se costurando e toda essa evolução poderia ser absolutamente perfeita não fosse pela maneira duvidosa com a qual Sherman-Palladino lida com um dos homens do passado de Rory.

Por fim, naquilo que Gilmore Girls faz de melhor o sucesso é absolutamente garantido: o texto. As referências pop, as piadas rápidas, os diálogos alucinantes, a forma absolutamente sagaz com a qual Sherman-Palladino e Daniel Palladino inserem um detalhe textual aqui que será brilhantemente trazido de volta à tona lá na frente, sem que você menos espere. Não há desperdício de cenas, porque mesmo na mais trivial pode haver uma linha que te faça sorrir ou que te provoque pela inteligência com que foi usada. E há muitas, muitas participações especiais que vão te encher o coração de alegria.

Ao final das quatro estações, é impossível não se comover com o resultado, feito para derreter o mais cético dos fãs e para contrariar aquela máxima de que "é melhor não mexer para não piorar". Um Ano para Recordar é um especial que honra e eleva a força de Gilmore Girls e que impressiona por se comprometer a nos divertir e surpreender até nas últimas palavras. Aquelas quatro, que deveriam ter sido ditas lá em 2007 e não foram. Acredite, elas valeram a espera.

Gilmore Girls: Um Ano para Recordar chega à Netflix em 25 de novembro, sexta-feira.

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